Machismo televisionado, a gente vê por aqui

 

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89% das agressões contra mulheres são de responsabilidade de seus maridos ou namorados, atuais ou de relacionamentos anteriores e 88% dos assassinato de mulheres são também praticados por essas mesmas pessoas. Esses dados fazem parte da pesquisa “Percepção da sociedade sobre violência e assassinatos de mulheres” da Data Popular/Instituto Patrícia Galvão, realizado em 2013. O Brasil é o 5º país que mais mata mulheres no mundo de acordo com o Mapa da Violência de 2015.

A cultura machista propagada em nossa sociedade há séculos é a grande responsável pelo feminicídio, pelo assédio e pelas agressões contra milhares de mulheres no Brasil. Por isso, muitas não se sentem à vontade para denunciar quando são agredidas fisicamente e verbalmente. Nem mesmo nas Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAM) esse direito é garantido.

Essas são informações de domínio público e não é preciso muito esforço para encontrá-las. Apesar disso, a TV Globo, conhecida pela qualidade técnica da produção de suas obras de ficção, vai levar ao ar duas personagens de suas telenovelas — em diferentes horários — fazendo falsas denúncias de agressão. Embora se tratem de obras de ficção, as ações das personagens contribuem para o aumento do preconceito e da violência contra as mulheres e passa a ideia de que o número de falsas acusações de agressão (e de estupro) é superior ao de crimes cometidos. Na verdade, a estimativa é de que apenas um em cada dez estupros no Brasil são denunciados.

Recentemente, uma figurinista da emissora decidiu denunciar num blog o assédio do ator José Mayer, depois de ver que a Globo não tomava nenhuma atitude após ela ter denunciado o acontecimento aos departamentos da emissora que deveriam cuidar do caso. Várias atrizes se mobilizaram a favor de Su Tonani e Mayer foi afastado das novelas globais. A Globo finalmente tomou a atitude correta ao expulsar Marcos do programa Big Brother Brasil por causa da forma agressiva como ele tratava Emilly, outra participante do jogo.

A decisão de mostrar duas denúncias falsas em suas novelas torna-se ainda mais grave após a apresentação de uma sugestão legislativa que propõe a criação de uma lei para classificar como crime hediondo e inafiançável a falsa acusação de estupro. A ideia recebeu apoio de mais de 20 mil pessoas e pode se transformar em projeto de lei, embora já exista previsão de punição para falsa comunicação de crime no Código Penal.

Nos casos de violência contra a mulher, ainda persiste a ideia de que a vítima é culpada pelo crime. Basta ver alguns comentários postados nas matérias sobre dois casos bastante conhecidos, como o estupro coletivo de uma menina de 16 anos no ano passado e de outra menina de 12 anos neste mês.

Por ser uma concessão pública, a emissora deveria trabalhar em favor da sociedade e, portanto, manter um compromisso com a vida das mulheres. Uma forma de fazer isso seria mostrar as dificuldades enfrentadas pelas brasileiras pelo simples fato de serem mulheres. Ao apresentar, mesmo na ficção, mulheres vingativas que fazem falsas denúncias de abuso, a Globo colabora para que o sistema patriarcal e machista continue silenciando e assassinando mulheres.

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