Pesquisa de Emprego da FEE aponta que crise atual é pior do que nos anos 1990

Por Fernanda Canofre, no Sul21

No final do anos 1990, numa das piores fases de desemprego da História do Brasil, propagandas e programas promovendo a chance do “primeiro emprego” para jovens eram lemas comuns de se encontrar. O país vivia uma inversão demográfica. Pela primeira vez, o número de jovens chegando ao mercado de trabalho era maior que o número de postos de trabalho disponíveis. E as taxas de desemprego cresciam. Quase vinte anos depois, em uma nova onda de recessão e com taxas e desemprego crescentes, para especialistas da Fundação Estadual de Economia e Estatística (FEE) do Rio Grande do Sul, a crise atual é ainda pior. Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (19), durante a publicação da Pesquisa de Emprego e Desemprego – Região Metropolitana de Porto Alegre (PED – RMPA), lançada periodicamente pela instituição.

Segundo a PED, a região registrou uma taxa de desemprego de 11,3% no último mês. O estudo aponta ainda uma tendência contínua de “destruição de empregos”, especialmente aqueles que são considerados como “protegidos”, ou seja, com carteira de trabalho assinada. “A gente vem perdendo os empregos mais protegidos, num contexto de recessão. As poucas ocupações que têm sido geradas nesse último período, têm sido essas mais precárias, que é o trabalhador autônomo e o emprego doméstico. O emprego doméstico, na nossa última pesquisa, teve crescimento e é uma ocupação que vinha em queda”, explica a coordenadora da PED e economista da FEE, Iracema Castelo Branco.

Na análise do diretor técnico nacional do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Clemente Ganz Lúcio, o cenário de recessão destrói a dinâmica econômica e, com ela, o emprego. Isso faz com que o cenário de crise atual seja pior do que o dos anos 1990. Segundo ele, analisando os números atuais, é como se quem vive hoje na região metropolitana da Capital estivesse vivendo em 2017, mas com o salário de 1993. Enquanto há duas décadas o problema era aumento na oferta de mão-de-obra, agora há aumento do número de trabalhadores sem emprego, ao mesmo tempo em que postos de trabalho estão sendo eliminados, sem perspectiva de reposição.

“Não vemos, no curto prazo, de dois ou três anos, nada que indique uma mudança desse quadro. Pelo contrário. Isso transforma nosso problema de desemprego, que aparentemente era conjuntural, em um problema estrutural. Mais estrutural ainda no quanto que as empresas, ao sair dessa crise, vão estar inovando tecnologicamente. Se assim o fizerem, podem estar destruindo mais postos de trabalho. Nós podemos ter uma dinâmica econômica se recuperando, mas sem a capacidade de gerar o mesmo número de postos de trabalho que ela destruiu”.

Clemente analisa ainda que o aumento do desemprego no cenário nacional foi influenciado pelo desemprego no setor da construção civil e da indústria. No último ano, as taxas aumentaram pelo desemprego em serviço e comércio. “É uma resposta do mercado do trabalho que, embora seja ruim do ponto de vista do emprego, é coerente para uma economia que está em recessão”.

A pesquisa da FEE aponta ainda que há também uma queda “intensa” do rendimento médio dos salários. O salário médio de 2016 foi o mais baixo desde que a PED começou a ser registrada, em 1992. “O que significa que, o aumento da renda e do salário médio que tivemos nestes últimos 10 anos, nós perdemos em dois. Os trabalhadores autônomos têm sofrido muito mais essa queda do que os trabalhadores assalariados. Se a gente pegar de 2014 até 2016, a queda que teve em 2015 e a queda que teve em 2016, o trabalhador assalariado teve uma queda de mais de 15% e o trabalhador autônomo teve queda de mais de 20% em seu rendimento médio. Esse é o efeito da crise e da recessão no mercado de trabalho”, diz Iracema.

Estudos recentes da FEE também indicam que, caso o Rio Grande do Sul tivesse uma população como a da década de 1990 – isto é, com mais jovens do que idosos – a situação seria ainda pior. “Se a gente tivesse aquele contexto, da população da década de 1990 para cá, com essa queda nas ocupações, a gente estaria com uma taxa de desemprego superior a 20%. Nesse contexto, a crise atual se coloca numa situação ainda mais severa do que a tínhamos na década de 1990, porque lá gerávamos mais empregos. Agora, a gente está destruindo os empregos que foram gerados na década anterior”, explica a economista.

Tudo isso se agrava ainda mais no contexto das reformas trabalhista e da Previdência Social, apresentadas pelo governo de Michel Temer (PMDB), no cenário nacional. Enquanto a Previdência pode se tornar ainda mais frágil com um mercado de trabalho fragilizado, o especialista do Dieese avalia que a trabalhista pode ter maior impacto. “Ela é uma reforma silenciosa, porque as pessoas olham e não veem no que ela está mudando. Mas, no fundo, é uma reforma que altera de forma estrutural o sistema das relações de trabalho que define as condições de trabalho e salário. Daqui pra frente, se aprovada essa reforma, nós teremos condições de legalizar a precarização: o que é hoje precário e ilegal, será precário e legal. E as empresas poderão reduzir custos arrochando os salários”, aponta Clemente.

Autor: Cris Rodrigues

Jornalista e social media.

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