“Não conheço nenhum segmento da sociedade tão esperançoso quanto os estudantes”, diz nova presidenta da UNE

Presidenta eleita da UNE (UNE/Reprodução)

Marianna Dias tem 25 anos e estuda Pedagogia na Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Desde o dia 18 de junho, quando aconteceu o 55º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Belo Horizonte, é a nova presidenta da entidade. A chapa vencedora, Frente Brasil Popular: A Unidade é a Bandeira da Esperança, conquistou 79% dos votos, ou 3.788 delegados.

Marianna nos recebeu na sede da UNE, no centro de São Paulo, para uma conversa sobre os próximos passos das comemorações dos 80 anos da UNE em agosto, a importância da educação em sua trajetória como militante estudantil e a perspectiva de futuro para os estudantes brasileiros em meio a um golpe parlamentar no país.

Confira a entrevista na íntegra:

Você escolheu estudar Pedagogia em um período (infelizmente muito longo) da nossa história em que a profissão de professor é muito desvalorizada. O que levou você a optar por esse curso? Você pretende atuar em favor dos profissionais da educação como presidenta da UNE?

Marianna Dias – Sem dúvidas. A gente compreende a educação como alvo muito estratégico na disputa da sociedade. Quando a gente tem um país que tem uma educação com mais qualidade, que tem mais acesso à informação, que incentiva mais o senso crítico da população, a gente percebe que a população consegue se interessar mais pela política, consegue se interessar mais pelos rumos do país. Então, o fato de eu ser estudante de pedagogia, eu compreendo muito, eu enxergo muito a sala de aula como um espaço muito importante para a construção da sociedade brasileira, para a definição dos rumos de um país desenvolvido, de um país mais soberano, de um país que valoriza mais as suas questões nacionais, a sua cultura, a sua organização social. Então, sem dúvida nenhuma, a educação é um instrumento muito importante para transformar a sociedade.

Você poderia falar um pouco sobre a sua trajetória estudantil e também no movimento estudantil?

Marianna Dias – Então, eu conheci o movimento estudantil já na universidade, através do meu diretório acadêmico do curso de Pedagogia. Eles me apresentaram o movimento estudantil e como era importante a nossa organização, através do diretório acadêmico, para mudar as coisas em relação à universidade, ao nosso curso. E, através do DA (diretório acadêmico), eu conheci a UNE, porque eu fui num evento, no Coneb  (Conselho Nacional de Entidades de Base), e numa bienal da UNE, em 2011, e aí eu pude ver o quanto aquele movimento – que eu conhecia só no diretório acadêmico – era tão grande e tão forte. Em 2011, essa bienal tinha quase 10 mil estudantes do Brasil inteiro no Rio de Janeiro, falando sobre cultura, falando sobre a identidade do Brasil, falando sobre a necessidade dos estudantes se mobilizarem para que a gente pudesse ter mudanças efetivas. E, sem dúvida nenhuma, o movimento estudantil contribuiu para que eu pudesse me encantar mais pela educação, me apaixonar mais pelo meu curso, pela universidade, pela potência que pode ser uma educação transformadora no Brasil.

Então, através da Pedagogia eu conheci o movimento estudantil, mas o movimento estudantil também fez com que eu me apaixonasse mais pela educação.

Marianna Dias, presidenta eleita da UNE (Vitor Vogel/CUCA da UNE)

Você assume a Presidência da UNE em um momento importante e histórico para os estudantes do país. No próximo dia 11 de agosto, a UNE completa 80 anos. Como será a programação da comemoração?

Marianna Dias – Primeiro, a UNE chega com 80 anos e assume uma postura perante os movimentos sociais de muita autoridade. A UNE é o mais antigo movimento social em funcionamento no Brasil. Então, isso nos resguarda uma autoridade muito grande, mas também uma responsabilidade muito grande, de estar à frente de uma entidade tão importante, histórica, que resistiu a tantos momentos no nosso país. Contar a história dos 80 anos da UNE é também contar a história do Brasil, porque em tudo é relacionado ao que aconteceu, ao que mudou. O que a história do Brasil representa está muito ligada à UNE.

Mas, em especial nesses 80 anos, nós queremos comemorar o aniversário da UNE nas ruas. Nós aprovamos, no congresso que me elegeu, que o mês de agosto será o mês da jornada de juventude, que já é uma jornada tradicional. Há muitos anos a UNE faz passeatas no mês de agosto, mas em especial essa será uma passeata, será um aniversário que a gente vai comemorar nas ruas ouvindo a voz dos estudantes, porque a gente acredita que esse é o caminho pra gente transformar as coisas que têm acontecido no Brasil, pra gente vencer esse processo de golpe e pra gente vencer contra essas pautas que têm sido apresentadas pelo governo ilegítimo de Michel Temer. Nós acreditamos que será nas ruas, com mobilização e pressão popular. Então, por esse motivo, nós vamos comemorar o aniversário da UNE nas ruas de todo o Brasil.

Chegando aos 80 anos da UNE, como você avalia a importância da entidade nos períodos mais importantes da história recente do nosso país? Por que é tão importante chegar aos 80 anos com força?

Marianna Dias – Primeiro que uma das principais coisas que a UNE se propõe a fazer é disputar a consciência dos estudantes há 80 anos, né? E quando a gente chega em mais um processo político histórico, no Brasil, por conta de a UNE nunca ter abandonado a disputa da consciência, abandonado a mobilização dos estudantes, a gente consegue chegar e perceber que essa geração, assim como a geração da ditadura militar, assim como a geração da redemocratização e a geração da década de 90, é uma geração preparada para enfrentar os desafios que estão postos no Brasil. E isso só é possível por conta dessa trajetória de 80 anos que a UNE tem, dessa disputa da consciência dos estudantes e, sobretudo, do convencimento que a UNE faz de que lutar vale a pena. De que a luta política, a organização, a mobilização dos estudantes nos permitiram transformar a realidade do Brasil durante muitos capítulos da nossa história. E não será diferente agora, porque a gente tem uma geração preparada, porque a gente tem uma geração que compreende que é necessário priorizar a luta coletiva, priorizar a organização e fortalecer a UNE.

Que tipo de futuro os estudantes brasileiros podem esperar com a atual conjuntura política do país?

Marianna Dias – Eu acredito que o Brasil tem passado por um dos momentos mais difíceis da sua história. Sem dúvida nenhuma, poucas vezes a gente viu, em tão pouco tempo, coisas tão agressivas acontecerem ao direito dos trabalhadores. Da noite para o dia, a gente viu a aposentadoria do brasileiro praticamente deixar de existir. Da noite para o dia, a gente viu o Congresso Nacional disposto a aprovar reformas trabalhistas, reforma da Previdência, lei da terceirização que precariza, de uma forma exagerada, os postos de trabalho.

Então, é um período de muita dificuldade. Mas eu não conheço nenhum segmento da sociedade tão esperançoso quanto os estudantes. O Congresso da UNE pode demonstrar o quanto a gente pode ter esperança de transformar o Brasil e de viver um futuro muito melhor. Isso depende também da nossa capacidade de lutar, da nossa capacidade de fazer pressão, da nossa capacidade de não desistir do Brasil. Porque, se a gente tem um futuro incerto, através da luta, das passeatas, do convencimento de que se organizar é importante, a gente tem a chance de transformar esse nosso futuro. Agora, se a gente desiste, se a gente cai no comodismo de que está muito difícil e que a gente não tem capacidade de mudar, aí de fato a gente não poderia contar com o futuro. Mas, através da esperança que a UNE representa e da esperança que os jovens representam, a gente tem, sim, capacidade de sonhar.

UNE/Reprodução

Qual tem sido o papel do movimento estudantil no enfrentamento ao golpe?

Marianna Dias – Sem dúvida nenhuma, a maior capacidade que a gente precisa ter é de ganhar cada vez mais parceiros. Sozinha, nem a UNE, nem as centrais sindicais, nem qualquer tipo de organização tem capacidade de enfrentar o golpe, mas, através da Frente Brasil Popular, da Frente Povo Sem Medo, que são grandes instrumentos de unidade do movimento social, daqueles que acreditam que lutar pelo Brasil é importante, a gente tem muito mais perspectivas. E todas essas mobilizações que foram feitas precisam se desafiar a dobrar, a triplicar. A gente precisa ganhar cada vez mais, disputar cada vez mais a consciência e o imaginário da população. Então, a gente tem que se voltar muito para a base que a gente representa e, no caso, a UNE representa mais de 7 milhões de estudantes universitários. Sem dúvida nenhuma é um caminho de sucesso para todos essas mobilizações que a gente tem em mente. Mas, sobretudo, criar uma grande campanha. No próximo período, vamos montar e fortalecer cada vez mais a campanha pelas Diretas Já, que é o grande caminho.

O caminho para se vencer o golpe e todos os retrocessos que têm acontecido no Brasil é a unidade. Que a gente compreenda que todos esses movimentos que acreditam que lutar pelo Brasil é importante possam cada vez mais ter unidade na luta, para que a gente consiga vencer o que tem, o que está posto no Brasil. A campanha em defesa das diretas é importante porque através das eleições a gente consegue restabelecer a democracia no Brasil, mas também perguntar pra população em que país quer viver. Porque o projeto que está em curso não foi aprovado pelas urnas. Em 2014, o povo brasileiro não foi às urnas dizer que queria uma reforma da Previdência da forma que está aí, que queria uma reforma trabalhista, que queria a retirada dos seus direitos, inclusive da aposentadoria. Então, com muita unidade, construindo essa campanha pelas diretas, eu acho que a gente consegue ter muito êxito na nossa luta no momento.

Temer começou o seu governo encaminhando uma mudança na Constituição que corta recursos da educação, entre outras áreas, de forma drástica por 20 anos. Ao mesmo tempo, setores conservadores da sociedade colocaram em discussão o projeto Escola Sem Partido. A gente vive não só no Brasil uma onda conservadora. Quanto tempo mais você acha que a gente vai sofrer com isso? Há esperança nesse meio de austeridade que a gente está vivendo?

Marianna Dias – Primeiro, vale a pena a gente analisar duas coisas. A primeira medida que o governo ilegítimo teve assim que assumiu foi mexer na educação. A PEC 55 coloca teto de gasto público, e o maior orçamento de investimento (porque é investimento, não gasto) público no Brasil é em saúde e em educação. Então, essa PEC vai interferir diretamente no orçamento dessas duas áreas, que são áreas que avançaram muito no último período com a valorização da universidade pública e com a valorização do SUS.

Medidas como esse projeto de lei da Escola Sem Partido, como eles chamam, que na nossa opinião é a escola com mordaça, interferem diretamente na soberania e no papel que a educação pode jogar. Porque, quando se tem educação, quando se tem a educação que fomenta o olhar crítico do brasileiro sobre a sociedade, a gente tem mais dificuldade em manipular o povo. Então, não é à toa que o governo ilegítimo escolheu atacar a educação, ainda que fosse um ataque a médio e longo prazo – porque a PEC 55 a gente ainda não consegue ter uma visão imediata do que ela vai representar. Sem dúvida nenhuma, é a morte da educação pública, é a impossibilidade de efetivar o Plano Nacional de Educação, que foi uma das maiores conquistas educacionais da história do Brasil. Impossibilita o investimento de 10% do PIB para a educação, o fundo social do pré-sal e os royalties do pré-sal para a educação.

Então, de fato, coloca a educação numa situação muito crítica. E a gente tem feito uma reflexão grande para que isso também possa ser uma ferramenta de mobilização dos estudantes. O quanto isso vai durar a gente não tem condição de saber. Mas a única certeza que a gente tem é que, se a gente não lutar, isso pode durar ainda 20, 30, 50 anos. Mas, com a esperança de que a nossa luta possa ter resultado, a gente se mantém firme.

Como preparar os jovens que, ao saírem da universidade, podem se deparar com os efeitos das reformas trabalhista e da Previdência no país?

Marianna Dias – Eu acho que uma das coisas centrais é a gente conversar com os estudantes para que nós possamos compreender que é uma pauta dos jovens também. Porque muitas vezes fica parecendo que a reforma da Previdência diz respeito apenas aos trabalhadores que já têm algum tempo no mercado de trabalho ou que as mudanças na aposentadoria vão atingir as pessoas que estão próximas de se aposentar. Mas um jovem de 25 anos, como eu, não tem perspectiva de se aposentar, de acordo com a nova legislação. Então, a conscientização de que a reforma trabalhista, a reforma da Previdência, a terceirização influenciam diretamente nas nossas vidas faz com que a gente tenha capacidade de mobilizar os estudantes com essa pauta, ao contrário do que se pensa de que é responsabilidade apenas dos trabalhadores alertarem sobre o que tem acontecido. Porque, quando se sabe o que vai acontecer e o quanto isso vai ser agressivo, o quanto isso vai ser nocivo, a gente consegue ganhar mais jovens para esta luta.

Como vai ser a participação da UNE na greve geral?

Marianna Dias – Nós aprovamos, no Congresso da UNE, uma carta de Belo Horizonte em unidade com todo o campo democrático popular que acompanha a UNE. E, nessa carta, nós aprovamos que a greve geral do dia 30 vai ser uma agenda prioritária para a UNE, mas não só no sentido de apoiar os trabalhadores que farão greve no dia 30, mas com o trabalho, com o empenho e com a dedicação de construir a greve, de paralisar as universidades, de conversar com os estudantes e aí, através dos centros acadêmicos, através dos DCEs, de toda a nossa rede do movimento estudantil, construir grandes mobilizações das universidades, para paralisar as atividades, para que tanto o setor produtivo quanto o setor educacional, ao lado dos professores e dos técnicos que compõem a comunidade acadêmica, que a gente tenha condição de fazer uma grande greve geral no dia 30, para que seja um instrumento de pressão cada vez maior.

Além das passeatas, o Brasil também vai parar, e isso já foi comprovado em outras tantas greves que já foram realizadas neste ano. A cada mobilização que passa, a gente consegue crescer mais, a gente consegue ter mais gente na greve, mais gente nas mobilizações. Porque de fato são medidas impopulares, antinacionais, que não dialogam com o povo. E a gente tem um cerco muito grande para que a informação não chegue até a população, porque tem uma mídia que não contribui, que manipula a informação. Mas, quando chega a informação, quando a população sabe o que acontecerá com seus direitos, ela tem respondido de uma forma muito satisfatória – tanto os trabalhadores quanto os estudantes. Então nós vamos, ao lado dos trabalhadores, construir a maior greve geral da história do Brasil no dia 30.

Para finalizar, você pode mandar uma mensagem para os estudantes?

Marianna Dias – Eu queria fazer um chamado a todos os estudantes do Brasil a se aproximarem cada vez mais do movimento político que acontece, em defesa dos direitos dos trabalhadores, em defesa da educação pública, em defesa dos nossos direitos que foram construídos. Porque a luta pode transformar a vida das pessoas, a luta pode vencer tudo o que tem acontecido no Brasil, mas para isso a gente precisa de cada vez mais jovens, cada vez mais estudantes que acreditam na transformação, que acreditam que a nossa geração pode contribuir para que tudo melhore. Então, ajude a gente a construir essa grande greve geral no dia 30, a construir uma grande jornada de lutas no mês de agosto para que o Brasil inteiro saiba a força que os estudantes têm.

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