A fome volta a assombrar o Brasil

Em 12 anos, a fome caiu 82% no Brasil, segundo o relatório O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Em apenas pouco mais de um ano de governo Temer, no entanto, ela volta a crescer e a assombrar famílias brasileiras.

É o que mostra uma matéria publicada pelo jornal O Globo neste domingo (09). O Mapa da Fome feito pela ONU mostra países em que mais de 5% da população não se alimentam de forma suficiente. O Brasil foi um deles durante muito tempo, mas desde 2014 não está mais lá, graças a políticas de garantia de renda para os mais pobres, ao desenvolvimento econômico com geração de emprego e valorização do salário mínimo e a políticas de incentivo à agricultura familiar e de promoção da segurança alimentar.

No ano passado, foi feito um pente-fino para descobrir beneficiários que declaravam renda menor do que a real para continuar recebendo o Bolsa Família, como é feito de forma constante e continuamente aprimorada desde que o programa existe. “O resultado, porém, foi a confirmação de um fenômeno de empobrecimento”, diz a matéria. A expectativa era encontrar famílias que declaravam menos do que recebiam de fato para aumentar o valor do benefício. O que aconteceu foi o contrário: grande parte perdeu renda e os cadastros estavam desatualizados. Em 46% dos 2,2 milhões de cadastros que tinham inconsistências, as famílias tinham direito a benefícios maiores do que os que recebiam, porque estavam mais pobres agora.

Mas, em vez de garantir que as famílias mais pobres tenham o mínimo em situação de crise, o que Temer fez foi suspender o reajuste prometido no benefício, que seria de 4,6%.

De acordo com o IBGE, a proporção de lares que viviam em situação de insegurança alimentar, ou seja, as casas em que os moradores passavam fome, caiu à metade entre 2004 e 2013, de 6,5% para 3,2%. A tendência agora é que esse índice volte a aumentar. Políticas como o teto de gastos por 20 anos, que retira dinheiro das políticas sociais, a reforma trabalhista, que vai precarizar a mão de obra, e a Reforma da Previdência, que vai impedir que muitas famílias tenham entre sua renda a aposentadoria, devem contribuir para piorar esse cenário.

A ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo Dilma Rousseff, Tereza Campello, comentou o retrocesso nas políticas de garantia da segurança alimentar no Brasil:

O Golpe é contra os pobres

Quando a Presidenta Dilma foi afastada por um golpe, 13,8 milhões de famílias estavam recebendo os benefícios do Programa Bolsa Família. Nas mãos dos golpistas, o Bolsa Família está despencando: caiu de 13,8 milhões de famílias, com Dilma, para 13,2 milhões em junho de 2017, e chega a julho com 12,6 milhões.

Um milhão e duzentas mil famílias foram sacadas/excluídas da rede de proteção pelo golpe. Isso representa 4,3 milhões de pessoas, a maioria crianças, considerando que, em média, cada família tem 3,6 membros.

O governo vinha dizendo que estava reduzindo o Bolsa porque não havia mais famílias na fila de espera. Mentira! O desemprego alcançou o índice mais alto da história, com 14 milhões de desempregados. Como não esperar aumento na procura do benefício?

O povo bate à porta das redes de assistência social. Temos informações de que existem mais de 550 mil famílias na fila, esperando para receber o cartão. Também sabemos que o Governo Federal está desestimulando as inscrições no Cadastro Único. Ou seja, a fila real, dos que de fato necessitam, é muito maior.

Até um mês atrás o governo golpista dizia que usaria o saldo da redução de famílias para dar o reajuste de 4,6% no BF. Agora congelou o Bolsa. Ou seja, excluiu famílias que precisavam para dar o reajuste do Bolsa e… deu mais um golpe: não deu o reajuste anunciado.

Corre solto na esplanada que essa “sobra” do BF está sendo usada para pagar as emendas parlamentares… A ver!

É só andar perlas ruas das médias e grandes cidades e se percebe que a pobreza voltou a crescer. O Brasil virou referência mundial por ter saído de um patamar de 10% da população em situação de subalimentação em 2002 para 1,7% em 2014. Dados recentes da FAO mostram que estávamos abaixo de 1% em 2015.

Mas o fantasma da fome volta a rondar. Corremos o risco de ser o país que mais rapidamente entrou no Mapa da Fome.

Autor: Cris Rodrigues

Jornalista e social media.

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